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A PrEP, os jovens e a prevenção do HIV

A Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) é uma tecnologia de prevenção ao HIV cada vez mais importante, que foi incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. No entanto, apesar de termos novos métodos de prevenção, a incidência do HIV tem crescido, de forma preocupante, entre jovens e adolescentes gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens (aGBHSH).

Um estudo recente buscou entender o que está por trás dessa dificuldade de acesso à prevenção, analisando os impactos de sistemas de opressão (como racismo e classismo) na jornada de cuidado com a PrEP.

O que é o “Continuum de Cuidado de PrEP” (CCPrEP)?

O sucesso da PrEP não depende apenas de tomar o comprimido. Depende de uma série de etapas que, juntas, formam o Continuum de Cuidado de PrEP (CCPrEP).

O CCPrEP envolve:

  1. Qualidade do conhecimento recebido sobre a PrEP.
  2. Experiências positivas nos serviços de saúde.
  3. Acesso à prescrição.
  4. Recebimento de recursos adequados para manter a adesão.

O estudo descobriu que os eixos de opressão social, como racismo e classismo (discriminação por classe social) e capacitismo (discriminação por deficiência), afetam todas essas etapas de forma interligada.

A Interseccionalidade: barreiras que se cruzam

O estudo utilizou a interseccionalidade, uma abordagem que ajuda a entender como a homofobia, o racismo e a discriminação por classe se unem para criar desvantagens e barreiras únicas para os adolescentes.

Os resultados mostraram que essas opressões impactam o sucesso do CCPrEP de maneiras diferentes.

1. Impacto no Conhecimento e Acesso

Houve diferenças marcantes na forma como os adolescentes souberam da PrEP:

  • Jovens Negros: Adolescentes negros relataram maior dificuldade no acesso ao conhecimento sobre a PrEP. Muitos descobriram a profilaxia de forma menos técnica, como através de parceiros afetivos-sexuais ou aplicativos de encontros.
  • Jovens Brancos: Em contraste, alguns adolescentes brancos relataram ter conhecido a PrEP em ambientes mais formais, como aulas com profissionais de saúde especialistas.

O racismo estrutural parece operar dificultando que pessoas negras frequentem a esfera acadêmica ou tenham acesso a debates científicos sobre PrEP, forçando a busca por informações em ambientes que podem ser menos confiáveis.

2. Capacitismo e Outras Barreiras

O estudo também destacou como outras formas de opressão se somam. Um adolescente negro com deficiência visual (capacitismo) relatou que, apesar de ir frequentemente ao serviço de saúde para fazer a testagem de HIV, nunca havia recebido qualquer informação sobre a PrEP, o que restringe seu acesso ao repertório de prevenção.

De modo geral, o acesso ao serviço foi a etapa do CCPrEP mais prejudicada pelas opressões sociais, especialmente devido ao racismo e à homofobia. Fatores como a falta de dinheiro, a distância do local de moradia e o medo de sofrer violência policial no trajeto dificultavam a chegada dos jovens negros ao serviço.

O papel central dos profissionais de saúde

Os Profissionais de Saúde (PS) são vistos como centrais para mitigar essas experiências negativas e garantir o acesso, uso e adesão à PrEP.

O estudo, realizado com profissionais que receberam capacitação e acompanhamento, revelou que, em geral, eles reconhecem as opressões (especialmente o racismo) e suas consequências nas vidas dos adolescentes.

Contudo, muitos profissionais ainda têm dificuldade em articular como as opressões se cruzam. Por exemplo, embora o racismo seja reconhecido, a articulação deste com outros eixos, como classe e deficiência, nem sempre é explícita ou tratada de forma consistente.

Para combater essas barreiras de acesso, a equipe do estudo desenvolveu estratégias para aumentar a vinculação dos jovens, como a realização de contatos entre as consultas e a criação de mecanismos para acolher inseguranças e medos durante o trajeto até o serviço.

Conclusão

As conclusões do artigo reforçam que as desigualdades sociais têm um impacto direto no sucesso da prevenção ao HIV. Para que o CCPrEP funcione plenamente, é essencial que os Profissionais de Saúde se movam para incorporar consistentemente ações que reconheçam e mitiguem as opressões sociais.

O sucesso da PrEP, portanto, é como construir uma ponte segura: não basta apenas ter a tecnologia (a medicação), é preciso garantir que o caminho até ela esteja livre de obstáculos e que todos os jovens, independentemente da cor da pele, classe social ou deficiência, consigam atravessá-lo com segurança e dignidade.